Quem não tem cão…
Anselmo Crespo

O ditado é antigo: quem não tem cão, caça com gato. Foi isso que José Sócrates fez há um ano, quando decidiu sensibilizar os maiores empresários portugueses para a necessidade de investirem na cultura, através do chamado mecenato. A lógica é aparentemente simples: o Estado não tem dinheiro para resolver os problemas básicos dos portugueses, na Saúde, na Justiça e na Educação, quanto mais para estar a investir na cultura. A solução é abrir espaço aos privados para o fazerem, dando-lhes em troca benefícios fiscais, que tanto jeito dão, no final do ano, quando se fecham as contas das empresas. Resultado: em 2007 o mecenato traduziu-se num investimento de 7,2 milhões de euros, sendo o BCP o campeão do apoio à cultura.

Importa no entanto analisar esta questão: não estará o Estado a desresponsabilizar-se numa área que devia ser prioritária? Será que o papel de um ministro da cultura se resume apenas a angariar mecenas? E o resto?

É que esta coisa de se pensar que a cultura é para as elites, não pode durar eternamente. Muita desta cultura patrocinada pelas grandes empresas, não é depois visível ou acessível ao grande público. A honrosa excepção é talvez a colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém que, enquanto gratuita, continua a receber muita gente. Mas quantos portugueses beneficiam da cultura paga pelas empresas? Puro desinteresse das pessoas, podem responder alguns, fraca divulgação, podem dizer outros, culpa da comunicação social, atiram ainda os que gostam de culpar os media por tudo o que de mau acontece. Podendo tudo isto ser um pouco verdade, será que o ministério da Cultura tem cumprido bem o seu papel?

É ou não é verdade que Lisboa e Porto centralizam grande parte dos investimentos em cultura? É ou não é verdade que o que existe de cultura no interior do país é, muitas vezes, fruto da carolice de associações e colectividades que por amor às coisas que são genuinamente nossas abrem museus e andam anos à espera do prometido apoio dos vereadores da cultura das Câmaras Municipais? É ou não é verdade que há salas de espectáculos magnífica espalhadas pelo país, completamente dotadas ao abandono, por falta de dinheiro para as recuperar? É ou não é verdade que o mérito de escritores, pintores, cantores, bailarinos portugueses, continua a não ser devidamente apoiado pelo Estado, que muitas vezes os ignora e só os reconhece, quando eles são premiados no estrangeiro? É ou não verdade que a cultura é muito mais que um quadro raro?

A cultura em Portugal continua, infelizmente, a ser uma coisa de elites. E quando se abrem as portas da cultura ao povo, como aconteceu com a colecção Berardo, o povo mostra que tem sede de cultura. E não devia o ministério da cultura dar de beber a este povo, a todo este povo deste Portugal que afinal não é assim tão grande? Devia. E é preciso muito dinheiro para isso? Não, basta um bocadinho de imaginação, aproveitar os mecenas e sair do gabinete do ministério da cultura. Esperança: temos um novo ministro.


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Anselmo Crespo

Com 27 anos de idade, é licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. É jornalista da SIC desde 2004 da Editoria de Economia e professor de Comunicação Social e Multimédia no Instituto Politécnico de Leiria.