O director cultural da Fundação EDP defende a liberdade de criação e não considera o factor económico como uma restrição. Com responsabilidades num dos maiores mecenas portugueses, José Manuel dos Santos diz que o meio é muito vulnerável, mas acredita que Portugal está no bom caminho. Só no ano passado, a Fundação contribuiu com de 3,2 milhões de euros.
LAB1.2 (Pisa-Papéis): Por que foi criada a Fundação EDP?
José Manuel dos Santos: A EDP foi desde sempre muito solicitada para dar apoio mecenático a vários projectos e iniciativas culturais. Quando se atingiu um volume considerável, e passou a ser uma prática regular e continuada, entendeu-se que havia necessidade de dar uma maior especialização, coerência, integração e transparência a esta prática, que traduz a responsabilidade social da empresa. Considerou-se, por isso, útil criar uma fundação para dar uma resposta mais sistemática, autónoma e organizada aos inúmeros pedidos que nos chegavam, quer do Estado quer da sociedade civil. Além disso, uma fundação desta natureza serve também para cuidar e valorizar com competência o património à sua guarda: o “campus” da Central Tejo, incluindo Museu da Electricidade, Arquivo Histórico e Documental e a Colecção de Arte.
Ou seja, além do apoio mecenático externo, há uma aposta interna no sentido de aproveitar os espaços da Fundação.
Sempre se considerou a ideia de dinamizar o museu e utilizar este espaço único, para além do apoio a projectos externos. É interessante e vantajoso, quer para nós quer para o público, ter produção própria de acontecimentos culturais. Privilegiamos por isso o estabelecimento de parcerias de actividades que possam ser integradas na nossa programação.
Essa é uma das condições para concederem um apoio?
Tentamos evitar considerar os apoios de uma maneira demasiado avulsa e episódica. O nosso critério fundamental é um dos conceitos base da própria actividade da empresa: a sustentabilidade. Gostamos de apoiar projectos que tenham eles próprios sua sustentabilidade, duração, solidez, consistência, que possam ser avaliados, que façam um trabalho com frutos não só no imediato mas também a médio e longo prazo. Para além disso, é importante que essa sustentabilidade exista na relação connosco, atendendo precisamente ao facto de termos programação própria.
Através das parcerias?
Nós temos programação, com metas e objectivos. Procuramos fazer uma associação com os projectos que apoiamos, constituindo parcerias de programação, sem esquecer, no entanto, os nossos objectivos de descentralização. Tudo isso conta para nos decidir a apoiar. Embora tenhamos muitas áreas de intervenção, não nos interessa fazer uma dispersão de apoios e iniciativas que torna difícil identificar a linha condutora da nossa actividade. Sem identidade, nitidez e relevo, nada se percebe. Queremos dar à nossa actividade um carácter específico. Temos um cruzamento de heranças, disciplinas e interesses que nos dão um perfil próprio e único na actividade que queremos desenvolver. Nós somos uma Fundação que tem, por exemplo, pela própria natureza da empresa, uma forte componente de cultura e tecnologia. Daí darmos algum relevo a actividades relacionadas com arquitectura e fotografia em que está bem patente essa ligação. Mas há também outra ligação entre o património, antigo e valioso, e a contemporaneidade. Olhar o património com uma visão actual, valorizar e trabalhá-lo do ponto de vista actual. A ideia é construir uma identidade clara e perceptível da fundação e da sua actividade.
“Não é um apoio cego ou incondicional. Nós vamos acompanhando a actividade dessas instituições, em diálogo regular, e no fim da vigência dos protocolos que com elas estabelecemos, avaliamos as vantagens da renovação para as duas partes”
As grandes participações da Fundação EDP nas artes do espectáculo acontecem com entidades públicas, como a Companhia Nacional de Bailado ou a Casa da Música. Porquê? É uma questão de prestígio?
Não se trata apenas de uma questão de prestígio. Trata-se de apoiar instituições que são fundamentais na vida cultural e que necessitam de apoios significativos que só as grandes empresas estão em condições de dar. Mas não é um apoio cego ou incondicional. Nós vamos acompanhando a actividade dessas instituições, em diálogo regular, e no fim da vigência dos protocolos que com elas estabelecemos, avaliamos as vantagens da renovação para as duas partes.
Não é frequente apoiarem projectos mais pequenos ou experimentais?
Além dos apoios que são mais conhecidos, também damos suporte a projectos mais pequenos, experimentais e contemporâneos. Temos, por exemplo, um espaço no museu, o do Cinzeiro 8, que tem uma vocação laboratorial. Criámos bolsas para jovens músicos da orquestra sinfónica juvenil, que são muito importantes para eles. Viabilizamos edições que têm a ver com os artistas premiados por nós ou com a nossa actividade.
Que vantagens foram consideradas para criar a Fundação?
Nós consideramos que a existência de benefícios fiscais é um elemento importante e motivador. Mas está longe de ser um elemento único, decisivo e determinante para o apoio que damos. Nós também apoiamos porque entendemos que temos essa responsabilidade perante a sociedade, e, por outro lado conferindo-nos, por outro lado, um prestígio que não se reduz apenas às vantagens financeiras. Na era da comunicação, há uma imagem a afirmar e o facto de haver o exercício de uma actividade mecenática, bem como um espaço de programação própria na área cultural, também é importante. Tendo a fundação como um dos objectivos a contemporaneidade, ele liga-se a uma preocupação central da empresa na sua área de actividade principal: o possuir uma visão contempornea da maneira como se trata a energia, relacionada com a sustentabilidade e e os valores ambientais. De alguma maneira uma coisa continua a outra. O facto de nós termos uma colecção de arte contemporânea, também caracteriza a própria empresa.
“Há cada vez mais a consciência de que a cultura em geral pode ter uma vantagem económica imensa para os países. Não pode é ser reduzida a isso”
Há quem defenda um divórcio permanente entre economia, que se sustenta em números, e os criadores, que não se querem subjugar às lógicas de mercado. Partilha dessa opinião?
Acho que essa é uma visão um pouco ultrapassada. Todos os criadores e agentes culturais estão conscientes de que a cultura precisa de meios para viver. E num país com recursos escassos, como é Portugal, é preciso saber captar os meios, saber usá-los e haver uma racionalidade nisso. A cultura tem as suas próprias lógicas de mercado, que são diferentes das restantes áreas. Acho que a ideia de que os artistas ou os criadores vivem num mundo à parte, desligados da realidade, hoje já não tem sentido. O que não pode haver é uma subordinação dos fins da criação artística a fins de natureza exclusivamente económica. Deve haver liberdade de criação. Depois de isso acontecer, a maneira de divulgar os produtos culturais de modo a entrarem nos circuitos de consumo obedece a regras próprias.
Acha que a cultura é rentabilizável?
Eu acho que isso tem sido feito. Hoje, a actividade cultural, mesmo em Portugal, representa um significativo contributo para a economia portuguesa. Cada vez mais as pessoas percebem – e ainda há pouco foi apresentado o relatório do peso da cultura na Europa – que o turismo cultural, por exemplo, é importantíssimo do ponto de vista económico. Há cada vez mais a consciência de que a cultura em geral pode ter uma vantagem económica imensa para os países. Não pode é ser reduzida a isso. É obvio que não se pode pensar que toda a cultura é rentável ou possa vir a ser, por isso é que o Estado tem um papel fundamental. E o mecenato também.