Tocá Rufar

A estrutura Tocá Rufar nasceu em 1996, e desde então é composta por mais de 8 mil membros, com idades compreendidas entre os 8 e os 80, como gosta de referir o seu mentor, Rui Júnior. Já ultrapassaram as 700 actuações e contam no seu currículo com cerca de 4000 oficinas de percussão. Há cerca de seis meses abriram uma delegação em Tavira, e estão também a trabalhar em formação nas escolas de Vila Real de Santo António através da autarquia local. Os núcleos de percussão vão também enraizar-se nos concelhos de Sines, Almada e Moita já no início deste ano. Actualmente além do grupo de percussão “O Ó que Som Tem?”, existe a companhia de música Tocá Rufar (CMTR) que tem em cena o espectáculo “WOK, Ritmo Avassalador” e ainda em projecto, mas já com algumas actuações, tem também o Bidonmania. Lá fora o projecto já passou por países como a Alemanha, Brasil, Coreia do Sul, E.U.A., França, Japão e Reino Unido.

 
“Não vejo lógica nenhuma na cultura subsidiada”
 

A história dos Tocá Rufar está intrinsecamente ligada ao percurso do seu mentor, Rui Júnior. O início encontra-se nas memórias de infância em Vila Nova de Gaia, com os desfiles populares do grupo de bombos Mareantes do Rio Douro, no qual ingressou aos 11 anos. Seguiu-se uma carreira de muita solicitação como percussionista em Portugal, tendo formado os “O Ó Que Som Tem” e colaborando com músicos como José Afonso, Fausto e Júlio Pereira. “Mas, sempre com uma grande carga de insatisfação em termos de realização pessoal”, confidencia Rui Júnior, e justifica “não era suficiente ser apenas músico, eu tinha que intervir a favor daquilo que me incomodava e tentar participar de uma forma construtiva”. O projecto Tocá Rufar nasceu dessa conjugação da ambição musical e de consciência social, tendo tomado forma em Novembro de 96 com o convite da Expo 98 para a criação de um espectáculo sob o símbolo do bombo. Uma década volvida, Rui Júnior fala-nos dos desafios, das dificuldades e de tudo o que implica gerir um projecto cultural auto-sustentável em Portugal.

LAB1.2 (Pisa-Papéis): Como foi criada a estrutura Tocá Rufar?
Rui Júnior (Tocá Rufar): No início, em 1996, éramos quatro músicos do "O ó que som tem", e a minha companheira que faleceu ao fim de um ano. Começou no escritório em minha casa, e depois alugámos o rés-do-chão do meu prédio com três assoalhadas. Ainda no mesmo ano, um dos elementos fundadores não aguentou a pressão e abandonou o projecto. Rapidamente, eu, o Fernando Molino e o Mário Santos criámos uma empresa e tivemos que nos disponibilizar a 100%, e deixar de trabalhar noutras áreas para nos concentrarmos neste projecto. Em Fevereiro de 97 arrancámos com reuniões para propor parcerias com as Câmaras, cuja proposta era suportar os custos de dois anos de formação com escolas para formar jovens e crianças com vista à constituição de uma orquestra com 300 elementos para em Junho ou Julho actuarem na Expo.

Qual foi a receptividade dessas autarquias?
Das 40 contactadas, três aderiram: a Câmara de Loures, a de Lisboa e a do Seixal. Estipulou-se um valor para cada formando, tendo em conta que nós daríamos formação gratuita. O valor do patrocínio era para o formando, os instrumentos, o fardamento, tudo o que implicava os diversos passos até chegar ao palco. O valor foi de 100 contos por participante, para formação ao longo de dois anos, portanto 300 (participantes) corresponderiam a 6 mil contos. Iniciámos com 850 alunos em 46 escolas desses três concelhos, e depois trabalhámos um ano e tal até seleccionar 300. Depois foi preciso arranjar patrocínio para as fardas e para os instrumentos.

Como foi financiada a formação desses 850 alunos?
Por nós, ou seja, não foi financiada. Nessa altura ainda estava viva a minha companheira que era professora e que nos conseguia dar 300 escudos por dia para combustível para nos deslocarmos às escolas. Um tocava bombo, outro caixa e outro timbalão, e ensinávamos com palmas e com o que houvesse à mão, geralmente garrafas de água e caixotes. Conseguimos depois que as câmaras nos cedessem autocarros para fazermos um primeiro grande encontro, juntando os futuros seleccionados dos três concelhos no CCB, que disponibilizou o pátio e garrafas de água, e com a ajuda de alguns músicos juntámos os tais 850. O Inatel patrocinou-nos a primeira compra de instrumentos que foram 150, e logo a seguir os restantes 150.

Mas foi feito um orçamento para o projecto, não?
Orçamentámos o projecto em Novembro de 1996 em 30 mil contos, o que seriam hoje 150 mil euro, e era o custo total do trabalho para dois anos, contando com o fardamento, os instrumentos, a logística, deslocações, refeições, as aulas. As contas bateram todas certas. A Câmara de Loures e do Seixal deram 10%, a Câmara de Lisboa 20%, e tínhamos 50%. Faltava-me arranjar contratações para este movimento de forma a que viesse a gerar receita e isso dispus-me a fazer com os recursos que íamos gerando. Fizemos um espectáculo no primeiro grande evento de abertura para a Olá com os 300 participantes, já com instrumentos e a cobrar cachet, por isso antes de chegar o nosso dia contratado pela Expo, já estávamos a trabalhar e a facturar. Chegámos ao dia zero (contratado da Expo) com uma receita bruta de 34 mil contos.

Este foi o vosso momento decisivo?
Tínhamos 300 jovens, 300 instrumentos, 300 fardas, quatro mil contos teoricamente no banco, a missão cumprida e agora o que é que vamos fazer. Esse foi sem dúvida o grande momento de viragem. Procurámos e vimos locais, decidimos pelo espaço onde ainda estamos e demos quatro mil euro ao senhorio por forma a assegurar seis meses de renda para termos um local onde guardar os instrumentos. Reunimos com os participantes do projecto da Expo e decidimos avançar com o Tocá Rufar com toda a força. Dirigimo-nos a entidades bancárias para pedir financiamento para comprar secretárias, o primeiro camião, cadeiras, computadores, biombos, equipamentos que ainda hoje aqui se encontra, e endividámo-nos em 40 mil contos.

Foi um grande investimento na altura...
Sim, em 99 foi. Falámos novamente com as autarquias, e a Câmara do Seixal foi a única que mostrou vontade de continuar a apoiar o projecto naquele formato, ou seja, o dinheiro não era a fundo perdido. Propusemo-nos a realizar projectos, períodos de formação e a atingir determinados objectivos quantificados por aluno, por hora ... Investimos também na formação de uma estrutura, uma empresa. Ao mesmo tempo constituímos uma associação e até hoje funcionamos com as duas estruturas paralelamente. Três dos sócios fundadores mantêm-se até hoje. A empresa faz a gestão de todo o projecto e a associação faz a gestão da associação.


“ ... a minha preocupação tem sido ter uma organização democrática, acessível, tendo muito mais oferta do que pedidos e que não carecesse de falta de sustentabilidade.”


Quais são as competências de cada um dos organismos, empresa e associação?
Por vezes é difícil distinguir as competências, porque trabalham as duas equipes juntas. Ainda assim, distinguimos entre o lado comercial que se rege pelas leis do mercado que é da obrigação da empresa; e o lado da dinâmica associativa mais vocacionado para a formação, para a igualdade de acesso. No fundo a minha preocupação tem sido ter uma organização democrática, acessível, tendo muito mais oferta do que pedidos e que não carecesse de falta de sustentabilidade. De certa forma é uma garantia ter uma empresa que lida com o mercado e não anda a pedir nada a ninguém, ganha os seus próprios recursos e as suas vendas, de forma a poder ter uma associação que patrocina e que não deixa de realizar os projectos associativos que consiste em todo o acesso gratuito que as crianças e os jovens têm às viagens, à cultura, à formação constante.

A formação é sempre totalmente gratuita?
Existe uma participação simbólica nos fardamentos que é o preço de custo, e nalgumas peças é de 50%. Pois são quase 9000 formandos e tudo isto implica encargos tremendos. Mas ainda assim não pode ser tudo muito formal e há excepções, porque há muitas famílias que quando se fala que terá de comprar a farda afastam-se logo. Nisto as regras fundamentais são: muita atenção, disponibilidade, amor, entendimento e muito poucos preconceitos. Há regras, mas têm de ser maleáveis.

Numa recente entrevista o Rui Júnior afirmou procurar não estar dependente do poder político. Costumam concorrer a apoios estatais ou já o fizeram de algum modo?
Fizemo-lo há alguns anos para proporcionar encontros internacionais de juventude. Concorremos a fundos comunitários. É um assunto que envolve sobretudo o Instituto Português da Juventude, e consideramos que algumas estruturas governamentais em Portugal, nas quais incluo o IPJ, não estão ainda suficientemente preparadas para dar uma resposta adequada às situações. Em Portugal faltam ainda muitas pessoas que saibam e tenham hábito de trabalhar quer no terreno, quer nas instituições. Esta será sem dúvida uma das instituições em que as pessoas não trabalham no terreno, não se dão conta da realidade e tomam decisões inadequadas, a maior parte das vezes com critérios de avaliação pouco ou nada definidos, e quando são definidos não são baseados na realidade nem local, nem regional, nem nacional. Portanto, há aqui um grande fosso na forma como esses financiamentos europeus são canalizados.


“Há uma forte amargura, minha e da nossa estrutura, relativamente à formalização de parcerias a nível estatal.”


Foi esta a única situação?
Foi, e foi a única entidade estatal a quem recorremos a apoios, e desde há dois anos para cá desistimos de o fazer. Pois apesar de cumprirmos todas as regras a nível europeu, aliás somos chamados e requisitados via IPJ para participar em seminários europeus, como aconteceu com o Reino Unido, a Finlândia ou a Alemanha que por directrizes de fora indicaram o Tocá Rufar como uma das instituições portuguesas para participar. Ainda não encontrámos uma forma de colaboração e construção mútua com o IPJ. Ao contrário do que se passa no resto da Europa em que há directrizes no sentido de algumas instituições ou algumas acções poderem ser lideradas e geridas por entidades privadas, nomeadamente associações, justamente para liberalizar mais e entregar mais a matéria a quem trabalha no terreno. Portugal ainda está muito atrasado neste sentido, ainda há muitos burocratas a trabalharem mal os dossiers e os financiamentos europeus. Portanto, a área formal não é um âmbito em que o Tocá Rufar invista, antes pelo contrário. Há uma forte amargura, minha e da nossa estrutura, relativamente à formalização de parcerias a nível estatal. O que não quer dizer falta de apoio, porque o melhor apoio que temos tido tem sido a contratação dos nossos serviços pelos diversos governos, e já passámos por três. Quando nos contratam para as campanhas e apesar das críticas vox populis, todas as pessoas do corpo de estado merecem o nosso respeito e não devemos ter uma atitude de desdém seja por quem for. Sempre que actuamos para o governo devemos congratular-nos por esse apoio, e por esse reconhecimento do nosso trabalho. Mas naturalmente o governo contrata-nos por reconhecer que é um trabalho artístico e social, e isso é um grande apoio. Não é preciso ter um protocolo, dossiers enormes, avaliações disto ou daquilo. Acho que Portugal inteiro tem-nos avaliado e apoiado desse modo informal, contratando-nos. É tudo isto que faz com que não sintamos ter falta de apoio.

Os espectáculos e as artes não são particularmente atractivas aos mecenas privados. O facto de o vosso projecto ter um forte teor social é um factor determinante neste âmbito?
Sejam as artes sejam as empresas. Acho que o público é cada vez mais consciente e opta por consumir produtos que defendem mais valores sociais, de solidariedade e de partilha, não tenho a menor dúvida disso. Aliás eu tenho um módulo de formação onde coloco uma Coca-Cola ao lado de uma peça de teatro ou de um produto cultural, sendo o objectivo desse grupo de trabalho durante uma semana ver porque é que um produto que tem menos de 5% de conteúdo é consumido por todos e porque é que um produto que poderá ter 95% de conteúdo poucos consomem e é pouco auto sustentável. Primeiro passa por colocá-las na mesma prateleira, e mais do que isso tem que ser uma outra garrafa ao lado, mais bonita com um conteúdo mais apetitoso, mais barato e com mais responsabilidade social, e este produto perde certamente. O que este produto não pode pensar é, não há uma má embalagem, mau conteúdo, maior preço, estar mais longe do alcance das pessoas e exigir que as pessoas façam o caminho daqui até ali. O produto cultural tem que se afirmar, tem que olhar para as ferramentas que existem para a sustentabilidade, tem que se disponibilizar a olhar para o mercado como um parceiro e não como uma entidade a quem exige. Tem que se colocar ao mesmo nível do sector privado, que quando quer vender um produto tem que o vender. Não podemos pensar que se precisamos de dinheiro para sobreviver vamos andar marginais ao dinheiro.

 

São uma estrutura completamente auto-sustentável?
Isso é muito difícil de se afirmar, somos autónomos na medida em que não temos passivos.

Mas actualmente apresentam estabilidade financeira?
Temos alguma estabilidade na medida em que se formos estáveis através do melhoramento e preocupação com a formação interna, e em sermos mais pedagógicos com os formandos, termos instrumentos e serem sempre melhores, de haver evolução e preocupação em fazer bem, melhor, limpo e mais quente ou mais fresco no verão. É o brio e esse brio dá-nos confiança. Actualmente somos uma grande equipa. Somos 23 na nossa estrutura, 16 a tempo inteiro com contrato, e gerar harmonia, proporcionar bem estar, encontrar uma equipe que se complemente, é muito importante neste sentido.

Esta equipa maior existe há quanto tempo?
Desde 2007. De 1998 até 2004 passámos de quatro para nove pessoas. Estivemos para fechar estas instalações em Dezembro de 2004 e mudar-nos para um espaço muito mais pequeno. Neste ano a economia retraiu-se muito, foi terrível, e a nossa estrutura também se ressentiu, mas não despedimos ninguém. Em Março, Abril começou novamente a despertar o mercado, a haver espectáculos, agarrei nos papeis e nas contas e voltei a desenhar o projecto para o recuperar financeiramente para os três anos seguintes, prevendo para 2007 um novo ponto de viragem que consistia na contratação de quadros. Pela primeira vez decidimos contratar pessoas sem serem do seio da orquestra, e definimos que as áreas que queríamos complementar seriam as de relações públicas, a área comercial, a área multimédia e o sector financeiro. Assim o fizemos no segundo semestre de 2007 através da contratação de nove pessoas. Ainda dentro dos planos de expansão, alargámos estas instalações e adquirimos uma sede própria. Provavelmente em Abril ou em Junho já devemos estar em instalações próprias, com o triplo do tamanho e já num imóvel nosso e com os recursos humanos já formados, pois achamos que temos que dar sempre às pessoas entre três a seis meses para se ambientarem, até pertencerem à família.


“No início foi muito difícil, sustentar uma casa desta a tocar bombos, era uma coisa inconcebível.”


O que é que vos permitiu esta evolução num tão curto espaço de tempo, sobretudo quando comparando com o vosso percurso inicial?
Estamos mais maduros. Ao início foi muito difícil, sustentar uma casa desta a tocar bombos, era uma coisa inconcebível. Ainda hoje na teoria é difícil, na prática os anos vão passando e nós vamos tendo trabalho e vamos concretizando os objectivos.

Qual é o segredo? Uma boa gestão comercial?
O segredo é muito empenho, não desistir a meio do caminho.

Certamente não é apenas esse o segredo. Têm imenso cuidado com a forma como se apresentam e como comunicam o projecto, bastante marketizado. É algo planeado e pensado?
Claro que sim, isso para nós faz parte da boa educação, das coisas mais simples da vida que é escrever bem, ter uma boa caligrafia, não dizer asneiras fora de contexto, saber comunicar com as pessoas, saber ter postura. São as coisas mais básicas e quando não se obedece a elas também nos tornamos um bocado desadequados. Eu não vejo a arte ou a performance ou os projectos sociais como o factor pobre da sociedade, acho é que há um grande desleixo nas coisas que se fazem. Está ao alcance de todos nós, não são estratégias de marketing, são coisas perfeitamente básicas. Não há nenhuma grande empresa daquelas que nos contrata pelos nossos lindos olhos, disso não tenhamos a menor dúvida, eles contratam-nos pelos excelentes serviços. Melhor ainda são jovens que estão sorridentes, que estão a fazer um trabalho, que mostram prazer e responsabilidade e sabem que é um trabalho social. Mas se não houvesse a excelência do serviço, não nos metiam nos grandes hotéis, nos grandes congressos e nestes eventos todos. Há uma postura de correcção da nossa parte a nível empresarial e depois a nível humano de know-how.

Como é a vossa relação com os media?
Um empresário ou qualquer empresa não tem qualquer problema em divulgar as suas actividades ou colocar anúncios nos jornais, paga. Uma instituição cultural paga também e ainda tem um bónus que é conseguir despertar interesse, simpatia por parte de algum autor, jornalista e que até divulgam um pouco mais, coisa que não fazem com as empresas. Não se pode é excluir uma das partes, que é não pagar, estar sempre à espera que os outros é que têm de pagar, contribuir. Temos de ser competitivos como as empresas e pagar aos jornais naturalmente. Também não acredito que um grande produto cultural fique na sua aldeia, se for um grande produto artístico não tenho a menor dúvida que salta para a esfera nacional, independentemente da publicidade, concerteza.

Há portanto investimento da vossa parte em divulgação e publicidade?
Um bocadinho. Mas normalmente uma empresa reserva 30% para o marketing e divulgação e ainda não chegámos sequer aos 2%. Chegamos mais facilmente a contemplar 5% de investimento tecnológico. Até agora não temos tido grande necessidade dessa auto-promoção, portanto temos vivido com muita receita e pouco investimento na divulgação e no marketing. Mas temos planos de encaminhar para aí, daí a aposta nos recursos humanos. Isto para crescer, temos planos ambiciosos: para já é a compra do novo imóvel, de futuro é a construção de um ainda maior, concretizarmos os planos que temos desde sempre de criar uma escola técnico-profissional das artes do espectáculo, de uma fundação, da aldeia do bombo. São projectos para os próximos 30 anos seguramente. Sabemos bem para onde queremos ir, sabemos que são projectos bastante grandes. Só temos é mais do que obrigação de fazer este projecto crescer.


“...costumo dizer que os apoios saem caro.”


Existe uma pessoa específica para a angariação de financiamentos?
É um pouco complementar, os sectores complementam-se. Além das vendas, o sector comercial pode contemplar o recurso ao financiamento. A forma como nos devemos dirigir, comunicar tem de automaticamente passar pelas relações públicas. Que traçam o perfil dos financiadores e a forma como comunicar.

Em que área encontram mais dificuldades na obtenção de apoios, é a formação ou os espectáculos?
É mais a área da formação porque é mais institucional. Aliás costumo dizer que os apoios saem caro.

Porquê?
Por parte das instituições potenciais apoiantes o que pedem em troca é geralmente muito superior ao valor do mercado. É mais equitativo vender pacotes de oficinas, devidamente quantificados (número de horas, quantos formadores, combustível, etc), do que receber um apoio não quantificado e por parte do apoiante estar sempre a exigir coisas com valor muito superior ao do apoio. Os apoios normalmente saem caros, têm essa perversão. O melhor apoio é pagar um serviço ao seu justo valor.

Quais são as vossas maiores fontes de rendimento?
80% das nossas receitas são os espectáculos.

Em termos éticos alguma vez foram confrontados com algum constrangimento?
Muitas vezes. Está sempre posto de parte formas de não dignificar o nosso projecto e a marca ou entidade contratante. Deverá haver sempre um encontro estético e ético de conjugação entre ambas as partes. Mesmo nas marcas há diferenças muito grandes, há marcas e marcas, e depois há a responsabilidade social, a ética da marca, há o objectivo com que a marca se quer promover. Não podemos criar uma regra nem sim nem não. É aprofundando a situação, vendo a legitimidade da situação, se é uma situação solidariamente e financeiramente interessante, sendo que deverá sempre ser dignificante. A dignidade e a honradez é aquilo de que nunca podemos prescindir. Não somos capazes de compactuar com situações que não nos sintamos dignificados e devidamente esclarecidos. Posso dar um exemplo que aconteceu logo no início, um programa que nos projectou muito, através do qual ficámos muito conhecidos: os Globos de Ouro (SIC). Ainda estávamos muito imaturos, foi por volta de 2000, depois da Expo. Eles tinham uns lenços para usarmos, amarelos, vermelhos e verdes para pôr ao pescoço e aquilo foi uma questão muito problemática porque estávamos no principio da afirmação da nossa imagem de orquestra e a coisa que os miúdos mais prezam é a farda. E então houve uma crise interna, com muitas queixas por não quererem usar os lenços. Reunimos com os 250 jovens, pois tínhamos um contrato, mas a conclusão foi depositar em mim a decisão final de usar ou não os lenços. E ainda hoje quando somos convidados para as campanhas políticas, falamos sempre com a orquestra, e continua-se a chegar sempre à mesma conclusão e aquilo que eu decidir, aquilo que for o Tocá Rufar nós aceitamos e fazemos.


“Há um momento em que tens de dizer que não e recusar essas dezenas de milhar de euro.”


Já tiverem que recusar convites?
Já tivemos que recusar convites, sim.

E que tipo de projectos eram?
Grandes eventos em que pouco a pouco a tua estrutura é envolvida num grande compromisso, há um grande factor compensatório, portanto falamos de muito dinheiro e vão justamente tratando-te com menor dignidade e respeito à medida que vais avançando. Há um momento em que tens de dizer que não e recusar essas dezenas de milhar de euro. E já tivemos, e temos regularmente situações dessas, seguramente uma vez por ano. Até hoje temos ultrapassado de uma forma positiva, ou seja, através do confronto, da negociação serrada e da nossa disposição de não compactuar, desistir de tudo, voltar atrás e dizer adeus e voltar a encetar negociação. Todos nós temos de sair de lá com o sentimento de dignificação, com orgulho do que fazemos e sentir que fomos tratados com respeito e temos ultrapassado todas essas questões e temos criado boas relações com essas entidades que provocaram esses factores destabilizantes.

Quais têm sido os vossos maiores obstáculos: políticos, económicos?
A instabilidade política por um lado. Friso bem: instabilidade política. A política precisa de ser estável para as pessoas terem tempo de se organizarem. Quando se fala em mais dificuldades só me vejo a operar na Alemanha onde faz um frio desgraçado ou em África onde não há condições para se ter mesas ou computadores. Portanto, não há dificuldade, acho que estamos muito bem situados. A dificuldade reside nas pessoas quando não gostam de ter uma vida motivada, sem ambições, passivas, cheias de auto-comiseração. Não acho que a motivação das pessoas que cá trabalham seja por ser este um projecto muito especial, é antes pelas pessoas em si, por serem motivadas e porque trabalhando cá contribuem para o projecto.

Quando se fala nas questões de financiamento no sector cultural, uma das questões mais controversas é a lei do mecenato, que embora tenha sido revista há relativamente pouco tempo continua a ser alvo de muitas críticas. Encontram mais valias nesta lei do mecenato portuguesa?
Como os benefícios não são grandes e o trabalho burocrático que dá, não há grande vantagem para uma grande empresa. Temos uma única empresa que trabalha assim connosco. Mas a lei do mecenato é uma grande mais valia se evoluir, no fundo é uma forma de passar a responsabilidade do apoio às artes do Estado para o sector privado. É uma aculturação que acho que se deve fazer, mas os benefícios fiscais deviam ser muito superiores. Depois passa muito por se achar que o Estado não tem de fazer tudo por nós. Desde quando é que o Estado tem de fornecer tudo?! O Estado devia ser um órgão de gestão financeira e controlo fiscal para pagamento de impostos para infra-estruturas. E não andarem aqui armados em fazer, decidir e ditar as orientações culturais. Quando o Governo diz: não há uma estratégia cultural. O governo não tem, mas os artistas têm todos estratégia cultural. Porque havemos de pensar e aceitar que o Estado há-de ser tudo. A cultura não deve ser subsidiada. A cultura subsidiada é justamente o contrário à cultura. A cultura deve ser independente, deve ter as suas próprias orientações e não andar orientada pelos subsídios que definem qual é a cultura que se consome. É a própria cultura e os artistas é que são culpados disto. Não vejo lógica nenhuma na cultura subsidiada.

Marisa Cardoso


 
Comentários dos Leitores Inserir Comentário
 
Ainda não existem comentários à esta matéria.