As propostas do Serviço Educativo são, em muitos casos, únicas no panorama nacional e até internacional  

A completar três anos de existência e tendo por estes dias anunciado a transposição do milhão de visitas, as polémicas que envolveram o projecto de criação da Casa da Música (CdM) foram substituídas por memórias de mais um projecto cultural vital e de sucesso na cidade do Porto, com efectivas repercussões nacionais como gostam de salientar os seus dirigentes.
Paulo Rodrigues é o Coordenador do Serviço Educativo desta instituição e neste seu projecto, em que “a principal motivação é a criação e implementação de ideias que envolvam artística e emocionalmente as pessoas que nelas participem”, desenvolve um trabalho cuja história ainda é recente. Os números, porém, são já sobejamente expressivos, registando em 2007 um crescimento de 483% nas actividades educativas (1108) comparativamente ao ano anterior.

LAB1.3 (Pisa-Papéis): Quando foi criado o serviço educativo e por que motivo?
Prof. Doutor Paulo Rodrigues: O Serviço Educativo, tal como a Casa da Música, tem raízes no trabalho realizado no âmbito do Porto2001. Com a criação da CdM em 2005 foi também criada uma Direcção de Educação. Com a passagem da CdM a Fundação criou-se um modelo em que a Direcção Artística e de Educação integra um Serviço Educativo. O trabalho educativo no campo da música foi sempre uma preocupação das várias fases deste percurso e a existência de equipas especializadas na coordenação de projectos claramente concebidos neste âmbito (quer pela filosofia quer pelo público-alvo) foi pensada como a forma de garantir a existência de uma vertente educativa no projecto global.

Como tem sido a evolução da vossa actividade, o que tem mudado?
Ao longo deste percurso tem havido diferentes concepções quanto a objectivos e quanto a opções práticas na escolha de projectos educativos. A actual filosofia assenta em duas ideias fundamentais: criar um conjunto de actividades que explore diferentes formas de ligação com a música: fazer, criar, ouvir e saber; e concebê-las de forma a permitir que uma gama muito vasta de pessoas possa usufruir de oportunidades educativas na música (bebés, famílias, público geral, público escolar, idosos, pessoas com necessidades especiais e outros tipos comunidades). Nesta altura existe uma programação geral regular ao longo de toda a semana que oferece oportunidades variadas e para grupos diferentes e existe também um conjunto de projectos que envolvem grupos específicos e que se processa sob a forma de projectos continuados.


"Existe um deficit de oferta, sobretudo ao nível de iniciação e a qualidade do que é feito é muitas vezes reduzida."


Como considera o estado da formação artística em Portugal? A oferta existente é suficiente?
Existe um deficit de oferta, sobretudo ao nível de iniciação e a qualidade do que se faz é muitas vezes reduzida.

Qual a sua percepção do trabalho desenvolvido pelos serviços educativos de instituições como a vossa no enquadramento da formação artística e cultural nacional?
É muito importante, mas nunca deveria ser entendido como um substituto da formação artística na Escola. A função dos serviços educativos, no que toca ao relacionamento com o público escolar, deveria ser a de causar estímulos na formação artística regular das escolas e a de proporcionar alternativas não-formais que são essenciais na actividade artística e que a Escola muitas vezes não consegue enquadrar.

Que acções ligadas às artes do espectáculo desenvolvem neste momento?
Todas as acções do Serviço Educativo – workshops (Primeiros Sons, Cybersom, Compor com HyperScore, Sonorizar Suggia, Políssonos), projectos continuados (Música na Sala de Aula, Grande Bichofonia, Curso de Formação de Animadores Musicais, projectos com comunidades), concertos (para bebés e famílias, Orquestra Digital, Coro de Famílias Reais, Sound=Space Operas) - se relacionam com a Música.

Como tem sido a receptividade do público?
Muito boa, embora com problemas pontuais em determinadas alturas do calendário escolar. Em Janeiro, por exemplo, a afluência a actividades do Serviço Educativo foi muito reduzida.


"... traçar novas direcções de trabalho que podem ser exploradas externamente, criando assim “sementes” que podem dar fruto de forma autónoma."


Quais as actividades com maior adesão, e em que é que o vosso trabalho se distingue do de outros serviços educativos?
O público escolar é o que mais usufrui das actividades do Serviço Educativo (em diversos tipos de workshops). O Serviço Educativo da Casa da Música tem, no entanto, uma gama de actividades dirigida a públicos muito mais vastos (bebés, famílias, idosos, público geral, comunidades, pessoas com necessidades especiais) e essa é uma das características que o distingue. Por outro lado, e à semelhança daquilo que se passa com a restante programação da Casa da Música, o Serviço Educativo propõe actividades que envolvem discursos artísticos muito diversos. As propostas do Serviço Educativo são, em muitos casos, únicas no panorama nacional e até internacional. O trabalho com comunidades e a articulação entre diferentes tipos de participantes nos projectos é outra das características originais.



Qual considera ser a importância da Casa da Música na dinâmica cultural do Porto, ou mesmo do país, nomeadamente no que implica o serviço educativo?
Muito grande. O Serviço Educativo oferece um conjunto de actividades que são muito distintas das experiências musicais na Escola ou noutras instituições que lidam com música, como por exemplo a Digitópia, as ExposiSons, os vários tipos de Workshops entre os quais os CyberSom, o Sound=Space, os Primeiros Sons ou os Terceiros Sons. Fá-lo numa base regular, criando assim um conjunto de oportunidades de participação em actividades de fazer, criar, ouvir e saber música, e por outro lado traça novas direcções de trabalho que podem ser exploradas externamente, criando assim “sementes” que podem dar fruto de forma autónoma. Promove diversos tipos de actividades de formação (Formação Música na Sala de Aula, Curso de Animadores Musicais, outros) que permitem transferir “know how” e metodologias de trabalho capazes de catalizar o trabalho com Música. Trabalha com comunidades desfavorecidas ou com necessidades especiais, permitindo tornar a Música acessível a todos.

De algum modo as medidas implementadas pelo Ministério da Educação interferem no vosso trabalho? Existem medidas deste organismo que considerassem importantes ser criadas de modo a apoiar os serviços educativos de instituições como a vossa?
As principais medidas que poderiam ser criadas deveriam ir no sentido de facilitar a participação das Escolas nas actividades promovidas pelo Serviço Educativo.

Pensas que a profissionalização deve começar lá atrás, na formação académica em Teatro?
A profissionalização em Portugal só será reconhecida quando houver uma consciência colectiva de que os criadores artísticos são algo de indispensável para o país. Temos o exemplo de Espanha, em que em cada cidade média ou grande está a abrir um centro cultural, um museu de arte contemporânea, em que cada vez mais o turismo cultural é parte da identidade do país. É preciso mudar o discurso, que as escolas espevitem a criatividade dos alunos. Senão teremos uma sociedade quadrada, que não se distingue das restantes do mundo capitalista, sem identidade.

E que dificuldades encontram neste âmbito? Existem ainda muitos constrangimentos relacionados com o funcionamento burocrático das Escolas ou prende-se com outras questões?
Tem a ver sobretudo com questões burocráticas e com imposições que diminuem a “liberdade de movimentos” dos professores e que fazem com que uma vinda à Casa da Música se torne num processo muito difícil de organizar. Tem também a ver com dificuldades logísticas e financeiras das Escolas no que diz respeito a transportes.



Marisa Cardoso

 
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 Prof. Dr. Paulo Rodrigues

Doutorado pela University of East Anglia e Pós-graduado em Ópera pela Royal Academy of Music, a ligação com a formação infantil começou ainda em Londres, onde fez parte do Baylis Programme da English National Opera, tendo também trabalhado com organizações de música na comunidade (MusicWorks). Compôs peças e liderou vários projectos com Escolas em Inglaterra e Portugal. Foi um dos fundadores da Companhia de Música Teatral com quem criou vários espectáculos, livros e CDs, muitos dos quais para crianças. É Professor Auxiliar no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, e desde Setembro de 2006 é Coordenador do Serviço Educativo da Casa da Música.