"A maior parte dos alunos têm consciência das dificuldades, mas aspiram a profissionalização"  

Foi bailarina e hoje trabalha na criação de cursos que oferecem um ensino diferente do oficial. Cristina Santos elogia o crescimento dos espaços de apresentação em Portugal, mas lamenta que o ensino da dança seja ainda secundarizado pelas tutelas.

LAB1.3 (Pisa-Papéis): Como vê o ensino das artes em Portugal, em particular da dança?
Cristina Santos:É uma questão problemática, especialmente falando na dança contemporânea, a chamada nova dança portuguesa. Houve certas políticas culturais com alguma consistência há cerca de onze ou doze anos no sentido de apoiar e desenvolver a criação, embora quase se possa dizer que o aparecimento desse fenómeno tenha sido de geração espontânea, devido à ausência de estruturas para o seu aparecimento. Esse fenómeno não tinha uma sustentação de base, política. Não houve grande preocupação com a formação, que é um elemento estruturante. E isso hoje ainda continua. A estratégia política de apoio a esse fenómeno criativo definiu-se sobretudo com o ministro Carrilho, mas em relação às coisas básicas não houve uma reflexão nem muita atenção dedicada. Chamo coisas básicas ao ensino, aos espaços disponíveis, às condições de trabalho. Eu acho que o lado invisível das coisas aqui em Portugal nunca foi muito acarinhado, nem houve grande reflexão sobre isso. Mas criou-se o lado visível do fenómeno: apoio à criação, à apresentação, festivais, oficinas de teatro, infra-estruturas de apresentação. Isso é o resultado final, mas o que dá origem a isso tudo está muito esquecido. Todo esse trabalho contínuo de formação, meios de produção, investigação, que atravessa períodos mais longos, é muito pouco apoiado.

Numa perspectiva global, considera que hoje o ensino concentra maior atenção da política?
Essa falta de atenção continua. Podemos dizer que há um desenvolvimento gradual num certo tipo de ensino, como o académico e clássico, que é melhor. Muito alunos completam esses cursos, e depois seguem outros caminhos, enveredam até pela dança contemporânea. Há também um certo desenvolvimento no ensino superior, nomeadamente na Escola Superior de Dança, mas na verdade a contemporaneidade está muito afastada do ensino mais estruturado, aquele que é tutelado pelo Ministério da Educação.


"Penso que nas artes contemporâneas seria fundamental haver uma maior articulação entre as duas tutelas, que se tem demonstrado muito complicada."


As oportunidades de formação são pouco regulares?
Há oportunidades pontuais de formação variadas, mas são muito poucas. O Forum Dança tem vindo a desenvolver um trabalho muito persistente e alternativo naquilo que é oferecido no ensino oficial. É persistente e continuado, mas não deixa de ter um aspecto um pouco pontual, pois só desenvolve projectos quando tem possibilidades mínimas e isso não é garantido com regularidade porque está dependente de financiamentos. Actualmente estamos a funcionar num sistema privado, pois conseguimos ganhar algum crédito no meio. De qualquer forma, o ensino da dança contemporânea é ainda muito deficitário. Penso que há trabalhos independentes e paralelos que são muito louváveis mas que são muito difíceis de realizar, até porque não são valorizados junto das tutelas da mesma forma que, por exemplo, a criação e a apresentação.

Falta coordenação entre os dois ministérios?
O ME tem uma acção muito limitada, não mostra grande atenção, disponibilidade ou meios para a contemporaneidade. Eu penso que nas artes contemporâneas seria fundamental haver uma maior articulação entre estas duas tutelas, que se tem demonstrado muito complicada. Foram feitas algumas tentativas, mas sem resultado.

Como é desenvolver um trabalho como faz o Forum Dança num país como Portugal?
Nós somos uma estrutura que trabalha quase exclusivamente na formação. É um terreno sem pai porque não há assumidamente uma política de apoio e desenvolvimento para esse tipo de ensino.


"Para um ensino de qualidade é necessário não só as pessoas de cá, mas também pessoas de fora."


São uma alternativa ao ensino público da Dança?
Diria que é mais alternativo, embora também possa ser considerado complementar. Na dança não há uma norma padrão totalmente absoluta. As pessoas fazem o seu caminho.

Mas estão vocacionados essencialmente para profissionais.
Temos um trabalho importante na formação de técnicos ligados à produção e gestão das artes do espectáculo, com cursos bem sucedidos nessa área nos últimos dez anos. Temos também um trabalho de Dança na Comunidade – de formação dirigida a pessoas que vão desenvolver pedagogia junto dos diferentes grupos comunitários da sociedade. Mas não com o objectivo de profissionalizar. No fundo levam a dança através de metodologias de estímulo à criatividade e construção de qualquer grupo: crianças, idosos. Depois há este trabalho profissionalizante na dança enquanto espectáculo. Os grandes projectos são formações específicas para profissionais, intérpretes e criadores. A nossa mais valia – e a grande diferença – é uma adequação maior e um ensino mais próximo das correntes contemporâneas.

Investem muito em professores estrangeiros.
Sempre tivemos a grande preocupação da internacionalização. Para um ensino de qualidade é necessário não só as pessoas de cá, mas também pessoas de fora. Não só de professores mas também de alunos. É muito importante que venham outros. Neste curso de 18 pessoas, só sete é que são portugueses, tivemos uma resposta internacional extraordinária. Chama-se Programa de Estudo, Pesquisa e Criação Coreográfica. São dois anos de formação diária, numa média de seis horas, com a vinda de muito artistas portugueses e estrangeiros focalizados na dança contemporânea, que se desdobram em diferentes correntes.

São jovens em iniciação?
São pessoas com 20 anos e que já trazem formação. Há quem esteja já num nível muito profissional e outros com relativamente pouca formação. É um grupo muito heterogéneo.

O curso é financiado?
Este é um curso pago pelos alunos. Já realizamos outros formatos, até de dois anos de formação, mas foram sempre cursos pagos pelos programas que usam dinheiro do Fundo Social Europeu. Actualmente isso acabou. Partimos para um novo projecto mais ambicioso, privado, ou seja, os alunos pagam.

Não há bolsas?
Há muito poucas hipóteses de bolsas, comparativamente à realidade europeia. Estamos em contacto com diferentes escolas europeias, e sabemos que os alunos têm todos acesso a bolsas dos governos. Há uma rede de possibilidades que nós não temos. É muito difícil reunir apoios. Acaba por ser um investimento. Poderá haver uma ajuda pontual daquelas entidades internacionais para ajuda a uma viagem, por exemplo. Mas é muito raro. Este curso pretende dar uma formação diversificada e pretende ajudar os alunos a encontrar um caminho próprio, numa via criativa ou interpretativa, fornecer os instrumentos, mas também num espírito de experimentação constante. E estimular-lhes a curiosidade e autonomia. Eles terão de encontrar o seu caminho.


"Antigamente as coisas estavam muito centradas nessas grandes estruturas, na companhia, na escola, ou no artista referência. Hoje em dia essa lógica desvaneceu-se."


Ou seja, a profissionalização é um caminho solitário.
A autonomia é hoje um elemento muito importante. Apesar de ter mais oportunidades, o mercado de trabalho é pobre. Nós não temos grandes hipóteses de ter, tal como noutros países europeus, a estrutura da companhia. Quase não temos essa figura. E quando se diz que é uma companhia ligada a um autor, raramente funciona com pessoas a tempo inteiro. Convidam pessoas pontualmente para cada projecto. Antigamente as coisas estavam muito centradas nessas grandes estruturas, na companhia, na escola, ou no artista referência. Hoje em dia essa lógica desvaneceu-se. Tínhamos o Ballet Gulbenkian, que acabou, e que neste espectro de oportunidades profissionais deixou um buraco muito grande. Tinha um nível de profissionalização muito elevado. E depois há todo o trabalho dos artistas independentes, que às vezes trabalham com coreógrafos, o que se pode assemelhar mais a este conceito de companhia. Mas não deixam de ser pontuais, não é um emprego. As próprias pessoas não estão reconhecidas por uma entidade onde vão trabalhar todos os dias, é trabalho intermitente, que é a realidade principal da dança contemporânea.

A lógica actual é de saltar de projecto em projecto?
Sim, quando há essa possibilidade. E isso é mais uma componente a ter em conta naquilo que é um profissional. Para além das suas capacidades artísticas, tem de haver também uma capacidade de gestão pessoal do seu trabalho que às vezes é muito dura, e nem todos têm estofo para isso. Estamos num país mais pobre, com menos hipóteses de trabalho, menos mercado, menos audições. Assiste-se até a um fenómeno que é muita gente ser empurrada para a criação. Os mais novos acabam, por isso, por criar coisas próprias. É evidente que isso não é mau, quem tem essa vontade criativa é óptimo que vá experimentando.

Têm consciência de um percurso complicado?
A maior parte dos alunos que temos têm consciência disso, mas vêm com expectativas profissionais. Alguns deles estão muito próximos ou já tiveram até experiências profissionais.

O que poderá levar um estrangeiro de 20 anos a investir numa formação em Portugal?
Não é a primeira vez que temos estrangeiros, mas não com esta expressão. Tivemos preocupação em divulgar o curso fora do país, através da Internet. O curso tem algumas particularidades que não são fáceis de encontrar. No fundo são dois anos de trabalho focalizado. Às vezes é difícil encontrar cursos regulares, as pessoas fazem muita formação pontual, têm os seus projectos, mas é muito instável e pouco sustentada e existe a necessidade de uma coisa mais estruturada. E isso acontece mais em escolas um pouco mais tradicionais. Tivemos menos candidatos portugueses do que esperávamos. Parece que existe um certo desencanto porque existe uma falta de perspectivas.

Há menos dinheiro…
Há uma enorme falta de dinheiro. Mas projectos, ideias, pessoas a trabalhar, mais estruturas, locais para apresentar, isso aumentou. Há também muito mais público. Pina Bausch é uma enorme referência na dança contemporânea, talvez a maior referência europeia das últimas décadas. É uma herdeira do expressionismo alemão e é para o grande público, mas aqui é uma coisa relativamente recente. Há quinze anos, quando veio cá, era para um público mais especializado. Houve uma enorme evolução em termos de público.

A aposta passa pelo estrangeiro?
Muitos saem de Portugal. Normalmente continuamos a acompanhar o percurso dos nossos alunos. Muitas das pessoas trabalham profissionalmente, até criam algumas estruturas. Até já convidámos ex-alunos nossos a darem aulas aqui. Os alunos de produção, que têm sido imensos, têm tido sucesso porque conseguem arranjar trabalho, mesmo independente.



André Rito

 
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 Cristina Santos

Tem uma formação em ballet clássico e foi bailarina na Companhia Nacional de Bailado. Com a Escola Superior de Dança, em 1986, deu aulas durante vários anos. Manteve-se sempre ligada ao ensino e foi uma das fundadoras do Forum Dança, em 1990, onde desenvolve projectos de ensino na dança. Vai fazer 49 anos.