Fábrica de Sonhos  

Profissionalizar as artes é acabar com a dependência dos subsídios. É isso que procura a Ar Quente, associação de teatro com deambulações pela performance... a partir de Faro.

LAB1.3 (Pisa-Papéis): Como nasceu A Fábrica?
Gil Silva: Em 2003, fizemos uma formação em dança contemporânea com o Miguel Pereira. Seis das doze pessoas que integraram essa formação, fundaram A Fábrica. A partir daí começámos a produzir peças de teatro. Nesse mesmo ano, recebemos a primeira proposta, do Maio Jovem, eu contactei uma encenadora que conhecia, a Helena Flor, e apresentámos a peça É Por Isso Que Nós Sentimos Pena. Nunca mais parámos. Em 2004, fizemos a segunda produção com a Susana Vidal; em 2005, surgiu a Cinemascope, com André Murraças, e, em 2006, fizemos duas produções, a Abertura Fácil, com Francisco Campos, e La Torre Desnuda, com Inês Rosa. Em 2007, levámos à cena 11 de Setembro, Uma Peça Vulgar, com o Miguel Pereira.

Alguma das pessoas que estão contigo neste projecto vive do teatro?
Não. Eu tirei economia, o Nuno Murta tirou o curso de educação comunitária, e trabalha como animador sócio-cultural; a Joana Costa tirou biologia marítima e está a acabar o mestrado; a Teresa Silva tirou Economia e trabalha num banco e o Ricardo Mendonça tem uma empresa de Informática. E temos alguns colaboradores, como o João Carrolo, a Inês Feirã, o Rui Gonçalves, a Susana Nunes... À excepção da Susana, ninguém vive do teatro. Mas, para todos, a Ar Quente é tão prioritária como a actividade profissional.

Como foram parar ao teatro?
Através do teatro universitário. Mas aquilo que fazemos hoje é mais performativo. Circulamos entre o teatro, a performance, e a dança. Procuramos o limite.

Em 2005, transformaram-se em associação. Porquê?
Percebemos que necessitávamos de angariar fundos, de criar uma estrutura legal que nos permitisse recorrer a patrocínios, subsídios e em 2005 nasceu a associação Ar Quente. É claro que este passo implica acreditar que vamos crescer enquanto projecto, caminhando para a profissionalização, membro após membro.


"A profissionalização significa evitar a subsídio-depêndencia."


O que significará para a Ar Quente a profissionalização?
Significa evitar a subsídio-dependência. Os subsídios são demasiado incertos. A associação deve ter os seus fundos próprios, para organizar as suas actividades. Queremos criar um projecto multidisciplinar, que engloba um café, uma sala de exposições, um espaço performativo, uma livraria/biblioteca. Assim financiaríamos as nossas próprias produções. Interessa-nos ter liberdade criativa. Os subsídios implicam seguir uma linha mais convencional, com contrapartidas. Teríamos de criar novos públicos, trabalhar com escolas... Nesta fase, interessa-nos criar, explorar os nossos limites enquanto grupo, enquanto performers.

Como têm sobrevivido até agora?
Com muita carolice, com muita vontade de fazer as coisas. Parece um cliché, mas é mesmo assim. Recebemos alguns apoios da Câmara, também já recebemos da Delegação Regional da Cultura, apoios residuais e vendemos alguns espectáculos, o que nos traz alguns benefícios. E também investimos do nosso próprio dinheiro, para cumprir os planos de actividades.

Como se relaciona uma associação sem fins lucrativos com os espaços culturais? Como apresentam as peças?
Temos tido receptividade das instituições locais ao nosso trabalho, nomeadamente do CAPA, o Centro de Artes Performativas do Algarve, do Teatro Municipal de Faro (TMF) e da Câmara Municipal. As nossas duas últimas produções foram feitas no TMF. Houve três produções que fizemos em espaços não convencionais, nomeadamente numa fábrica de cerveja abandonada.

É complicado imporem-se?
Trabalhamos para um determinado público e não para massas. Isso limita-nos à partida. Outra limitação é o tempo. Temos outras actividades que desenvolvemos. Se tivéssemos uma pessoa a trabalhar a tempo inteiro na produção, talvez fosse diferente, possibilitava-nos novos horizontes a nível de divulgação, do contacto com outros espaços culturais... mas não temos capacidade financeira para tal. Com a profissionalização, pretendemos contrariar isso.

Se a Ar Quente estivesse em Lisboa seria mais fácil?
As coisas devem acontecer onde estão a acontecer. Aqui somos os únicos a fazer este tipo de trabalho. E interessa-nos trabalhar onde estamos, parece-me importante a descentralização, isso só enriquece o país. Sentimos que cada vez mais o nosso papel é reconhecido, porque foge um bocado à convenção.

“Se não insistirmos na importância da educação artística, teremos uma sociedade quadrada, que não se distingue das restantes do mundo capitalista, sem identidade.”


Pensas que a profissionalização deve começar lá atrás, na formação académica em Teatro?
A profissionalização em Portugal só será reconhecida quando houver uma consciência colectiva de que os criadores artísticos são algo de indispensável para o país. Temos o exemplo de Espanha, em que em cada cidade média ou grande está a abrir um centro cultural, um museu de arte contemporânea, em que cada vez mais o turismo cultural é parte da identidade do país. É preciso mudar o discurso, que as escolas espevitem a criatividade dos alunos. Senão teremos uma sociedade quadrada, que não se distingue das restantes do mundo capitalista, sem identidade.

Quais são os vossos objectivos para este ano?
Outro grande objectivo da associação é a edição. Enquanto Fábrica, editámos uma revista, a Demente. Em 2008, queremos editar uma revista anual, que pretendemos que seja um objecto artístico em si. Queremos mostrar trabalhos de criadores. Este ano, queremos também editar um livro, que se chamará Abertura Fácil, a propósito de uma peça que fizemos. Outro dos principais objectivos da associação é arranjar um espaço físico, com as valências de que falámos anteriormente. É complicado, porque os espaços privados são bastante caros – a especulação imobiliária em Faro é grande. A Câmara também não pode ceder-nos um espaço. Estamos à procura.



André Rito

 
Comentários dos Leitores Inserir Comentário
 
Ainda não existem comentários à esta matéria.
 
   
 
 
 Gil Silva
Gil Silva nasceu em 1974, em Vila Real, Trás-os-Montes. Em 2003, mudou-se para Faro e fundou o grupo de teatro A Fábrica. Licenciado em economia, teve vários empregos ligados ao mundo empresarial, mas optou pelo mundo das artes. Actualmente, trabalha como produtor no Teatro Municipal de Faro.