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Os trilhos da artes circenses marcaram o início do seu percurso profissional, mas é na produção que tem encontrado a sua principal ocupação. Mafalda Gouveia, com mais de uma década de carreira, tem estado envolvida em inúmeros projectos que percorrem diversas áreas das artes do espectáculo: das artes circenses ao teatro, da dança à música.
Em entrevista, esta produtora partilhou a sua perspectiva enquanto profissional ligada às artes circenses, a área das artes do espectáculo que apresenta uma maior indefinição em relação à questão da profissionalização. Formação insuficiente, ausência de uma rede organizada e uma área a precisar de revitalização são as principais particularidades diagnosticadas.
LAB1.3 (Pisa-Papéis): Como considera o actual panorama das artes do espectáculo em Portugal relativamente à profissionalização? E particularmente nas artes circenses?
Mafalda Gouveia: Temos nas várias áreas das artes do espectáculo oferta relativamente à profissionalização nas áreas do teatro, dança, música e artes plásticas, por exemplo, seja através do ensino superior seja através de acções de formação / workshops que são organizados por estruturas artísticas.
Em relação às artes circenses a lacuna é muito grande. Temos uma escola profissional (EPAOE) que é manifestamente insuficiente, pois falamos de uma escola onde se estuda até ao 12º ano e onde a formação ao nível das artes circenses é abordada de forma, diria, superficial. É uma boa forma de iniciação nesta área, uma vez que os alunos têm um contacto com as várias áreas do espectáculo, incluindo algumas disciplinas vocacionadas para as artes circenses. Mas depois esses mesmos alunos, terminando o 12º ano, ou ingressam num curso superior de teatro ou dança, ou se de facto querem aperfeiçoar uma ou mais técnicas circenses têm de recorrer a escolas fora de Portugal.
Isto coloca outras questões, pois estes alunos que vão para escolas fora do país, tendencialmente ficarão por lá, já que em Portugal dificilmente encontrarão as condições “ideais” para se estabelecerem. Portugal não tem uma rede verdadeiramente organizada no que diz respeito às artes circenses.
A profissionalização é actualmente uma questão mais presente ou continua a sentir-se uma certa indefinição nas artes circenses?
A indefinição é já um problema de longa data. Não vejo grandes movimentos nesta área por parte dos artistas que vivem e trabalham cá. A oferta é praticamente nula ao nível da formação como referi atrás, e esta profissão requer uma formação e reciclagem constantes.
"A realidade é que não há verdadeiramente companhias de circo em Portugal."
Se sim, de que modo esta indefinição interfere na produção e montagem de um espectáculo?
Se falarmos de um espectáculo criado de raiz e de nível artístico e técnico elevados, penso que interfere de modo negativo.
A realidade é que não há verdadeiramente companhias de circo em Portugal.
O mais aproximado que temos é o Circolando, uma companhia do Porto, e havia um outro grupo em Setúbal, o Neo Circa, que tanto quanto sei já não existe.
Isto pode verificar-se por exemplo nos concursos pontuais aos transdisciplinares. Praticamente não há projectos a concorrer.
Como vês a formação nesta área em Portugal comparativamente ao que se faz lá fora?
Se compararmos com França, que penso ser um bom exemplo ao nível da formação circense, o nosso país certamente estará muito atrás quer em relação às condições, quer em relação a apoios do Estado. Em França, a oferta é enorme e o Estado francês dá de facto apoio às artes circenses.
Existem, além de muitas pequenas escolas onde se podem frequentar disciplinas de circo, muita oferta ao nível de workshops e o mais importante de tudo, Escolas Superiores de Artes do Circo, com o apoio do Estado.
Existe em Portugal muito a fazer neste aspecto.
"... tem de existir uma revitalização no mercado de trabalho a fim de estimular o interesse do Estado."
Tem acontecido alguma evolução, crescimento? Quais são as maiores dificuldades e deficiências que diagnosticas?
Além do que referi, presumo que essencialmente tem de existir uma revitalização no mercado de trabalho a fim de estimular o interesse do Estado.
Consideras as políticas culturais que implicam a actividade artística profissional adequadas à realidade nacional? O novo estatuto do artista é efectivamente adequado à realidade do nosso meio?
Não, não são adequadas.
Não conheço a fundo o novo estatuto.
Enquanto não se encarar a sério que Cultura é educação, que o artista faz forçosamente parte dessa realidade, e que há especificidades nesta profissão que têm de ser cuidadosamente analisadas e legisladas em condições, não avançamos.
O artista é prejudicado pela intermitência inerente ao tipo de profissão que tem. A maior parte não tem trabalho regular e depende de subsídios para poder desenvolver a sua arte e realizar os seus projectos artísticos e a verba no orçamento de Estado para a Cultura é insuficiente para garantir alguma estabilidade.
Que medidas consideras que deveriam ser tomadas para melhorar a situação dos profissionais nas artes do espectáculo, e particularmente nas artes circenses?
Em primeiro lugar deveria ser repensada de forma séria a protecção social do artista. É uma profissão com especificidades muito particulares e às quais não é dada a devida atenção.
Particularmente nas artes circenses deveria ser considerada uma profissão de desgaste rápido, tal como acontece com os ginastas de alta competição.
Marisa Cardoso
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