Artes do palco
Fazer arte da precariedade
 
A formação existe, mas é pontual. Chegados ao mercado, os jovens artistas deparam-se com uma profissão entusiasmante, mas também muito precária. Muitos acabam por traçar o seu caminho, de forma livre e independente. A maioria salta de projecto em projecto. É a arte de sobreviver.

Em Portugal a formação nas artes de palco, da dança ao teatro, passando pelas artes circenses, está ainda longe do desejável. Essa é pelo menos a convicção da maioria dos entrevistados para esta terceira edição da LAB, dedicada à profissionalização das artes de palco. Um défice que, apesar da variedade de oferta – ela existe mas de forma pontual –, não deixa de ser um elemento constrangedor da profissionalização.
Márcia Leal tem 27 anos e é actriz. Trabalha actualmente integrada no elenco da peça Rock’n’Roll, em cena no Teatro Aberto. Estudou no Conservatório de Teatro, e tem também alguma experiência em televisão.“Uma mais-valia”, considera, mas nem sempre suficiente numa profissão cuja própria essência é precária. Neste último trabalho acredita que foi a formação a abrir-lhe as portas. “É essencial para começar a trabalhar”, explica. “Mas o mercado nem sempre valoriza esse factor.”

Seguindo essa normativa, há jovens que se desdobram em diversas formações especializadas, mas que enfrentam sérias dificuldades em integrar o mercado de trabalho. Essas são transversais a praticamente todas as áreas de actividade. E a opinião parece consensual: o início é sempre difícil. Falta um elo de ligação entre a formação e a profissão. “Devia haver um maior acompanhamento por parte das escolas na integração dos seus alunos no mundo do espectáculo. Quando me formei, não se mostrava o nosso trabalho. Era importante que os encenadores pudessem, por exemplo, assistir aos nossos exames finais, tal como acontece com outras profissões, em que as universidades fazem a ponte com as entidades empregadoras”, considera Márcia Leal.

Acresce que nas artes de palco o processo de aprendizagem deve ser dinâmico e constante. Esta é uma área onde a formação contínua é decisiva, o que “torna muito complicado conciliar tudo no dia-a-dia” “Sinto necessidade de ir fazendo pequenas formações, como workshops ou oficinas de teatro. São importantes no nosso crescimento enquanto actores”, revela a actriz contactada pela LAB. “Mas quando trabalho numa peça, essa formação tem necessariamente de ser abandonada”, explica.

A oferta de formação é, no entanto, escassa, pelo menos não acompanha a procura. É o que acontece nas artes circenses, onde comparativamente a França, por exemplo, Portugal está claramente uns furos abaixo. “Não só em relação às condições, como aos apoios do Estado. Em França, a oferta é enorme e o Estado dá de facto apoio às artes circenses. (…) Cá é praticamente nula ao nível da formação, e esta profissão requer uma formação e reciclagem constantes”, diz Mafalda Gouveia, responsável pela direcção de produção da companhia Primeiros Sintomas.

A opinião é partilhada por Cristina Santos, do Fórum Dança, que reconhece a existência de cursos e formação, mas sempre muito pontuais. Um problema também identificado pelo Coordenador do Serviço Educativo da Casa da Música do Porto, Paulo Rodrigues, que considera que “existe um deficit de oferta, sobretudo ao nível de iniciação, e a qualidade do que se faz é muitas vezes reduzida”. E adianta que os serviços educativos podem ser um bom começo, mas não devem substituir a formação. “É muito importante, mas nunca deveria ser entendido como um substituto da formação artística na Escola. A função dos serviços educativos, no que toca ao relacionamento com o público escolar, deveria ser a de causar estímulos na formação artística regular das Escola e a de proporcionar alternativas não-formais que são essenciais na actividade artística e que a Escola muitas vezes não consegue enquadrar”, afirma o coordenador.

Autonomia
Para contornar as dificuldades em ingressar nalgum tipo de produção, há jovens que se tornam autónomos, dedicando-se à criação e concepção. É um fenómeno curioso, mas que tem servido de solução temporária para muitos dos que têm formação superior. A dificuldade em penetrar no mercado de trabalho leva muitos jovens actores a dar vida aos seus próprios projectos, talvez aqueles que estavam guardados mas tiveram de sair da gaveta mais cedo. É o caso da Associação Ar Quente, projecto sedeado em Faro, e que se tem vindo a afirmar no panorama artístico da cidade. Tal como outros espalhados pelo país, este é um projecto que vive da dedicação quase voluntária dos seus elementos. A maior parte trabalha noutras áreas, mas realiza um grande investimento pessoal na associação. Colaboram activamente com o Teatro Municipal da cidade, onde fazem as visitas encenadas, integradas no serviço educativo da estrutura. As novas tecnologias têm também dado um “empurrão” aos jovens que se querem afirmar nos meandros das artes de palco. À escala europeia, há pequenos grupos quase de geração espontânea que reúnem interesses comuns, vão a encontros internacionais e acabam por produzir alguns espectáculos. É a tentativa, muitas vezes com sucesso, de mostrar trabalho. Esse tem sido um caminho muitas vezes traçado, orientado pela ideia de que “é importante mostrar trabalho”, na perspectiva de abertura de novas portas. A opção de muitos jovens portugueses passa também pelo estrangeiro. Sobretudo nas vertentes do espectáculo menos apoiadas em Portugal, como é o caso das artes circenses. “Terminando o 12º ano, ou ingressam num curso superior de teatro ou dança, ou se de facto querem aperfeiçoar uma ou mais técnicas circenses têm de recorrer a escolas fora de Portugal”, admite Mafalda Gouveia.

De projecto em projecto
Embora o trabalho de um actor possa não conhecer grandes períodos de intervalo, a verdade é que, tal como todos os trabalhadores das artes de palco, a actividade que desempenha tem um carácter intermitente. Pelo menos o trabalho que é visível. Atravessa períodos de tempo mais ou menos longos em preparação de novas produções, ensaios, ou simplesmente em reflexão. Se para quem está plenamente integrado o conceito “intermitente” é sinónimo de precariedade, para quem está a iniciar representa dificuldades adicionais avultadas. O ciclo de produção da generalidade das actividades, associado aos períodos de preparação e desenvolvimento artístico determinam que os profissionais destas áreas tenham que suportar períodos de actividade preparatória que não têm qualquer contrapartida em termos de rendimentos. “É um tipo de profissão que não tem protecção socioprofissional”, garante a actriz Carmen Santos, coordenadora da direcção do Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, considerando ser “trabalho precário” mas que “faz parte da própria profissão e da forma como está estruturada”. “Não existe uma estrutura fixa de companhia, colectivos de produção. Agora são mais os núcleos restritos. A mobilidade é uma exigência deste trabalho”. Por outro lado, afirma, “a legislação não se adequa de todo à realidade do nosso sector. Actualmente já não temos a figura da companhia, mas a nova lei, promulgada este ano, deduz que há grandes colectivos de produção. Existem, isso sim, projectos que angariam individualmente pessoas”, explica. “A lei pressupõe que na relação empregador trabalhador exista um contrato, mas isso não acontece. Não há a mínima protecção, cada um depende exclusivamente de si.”


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