Profissionais à Deriva
Tiago Ivo Cruz
A profissionalização de um artista no mercado de trabalho português continua a ser um processo de sobrevivência selvagem, absolutamente à margem de qualquer enquadramento laboral ou um coerente processo de valorização de competências e empreendedorismo. Não me refiro ao inevitável estatuto de desempregado a que qualquer licenciado é submetido hoje em dia, mas sim a um problema sistémico de toda a estrutura social que retira o bom-senso ao mercado de trabalho artístico.

O sistema de controlo e trocas de favor/vingança que a geração agora no poder impôs na capela cultural (e demais outras) é extremamente intricado, e possivelmente só uma renovação geracional poderá reformar esta dinâmica. É uma questão de "meio", e não é por ele ser pequeno (é pequeno em todo o mundo). O provincianismo é muito mais identificável com falta de bom-senso do que com uma questão estrutural e dimensional do meio cultural. E a acção da anterior ministra da cultura é um exemplo: não é de bom-senso ignorar a orquestra como o principal membro decisório de quem é que a irá dirigir. Não é de bom-senso despedir ambas as direcções do TNSC e da Companhia Nacional de Bailado porque estavam contra a formação de uma empresa de gestão conjunta - OPART (organização que o actual Ministro da Cultura já declarou como obsoleta, posição pela qual declaro o meu apoio).

A Refundação do Ensino Artístico é o último produto da falta de bom-senso governativa.

O Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, pretende expandir o ensino musical a todas as escolas primárias e secundárias. Estamos a falar de um milhão de estudantes, muito além dos actuais dezassete mil alunos que estudam nos conservatórios. É grandioso. Mas o Secretário de Estado entende que para tal acontecer é necessário restringir os conservatórios ao regime integrado (regime onde um aluno estuda apenas música sem frequentar uma escola geral), e retirar a possibilidade de um aluno livremente escolher estudar música como complemento do ensino geral (regime supletivo). As consequências são enormes, pois isto significa impedir 90% dos alunos presentemente a estudar nos conservatórios de continuarem os seus estudos no próximo ano lectivo. Mais. Segundo a proposta do Secretário de Estado, isto significa que um aluno que não tenha 10 anos de idade não se pode inscrever no Conservatório. Que o João Maria, rapaz que com os seus 7 anos toca um violoncelo mais alto do que ele, não vai poder continuar a estudar. Que a Maria Luísa, de 26 anos, cantora profissional do coro Gulbenkian e que estuda no conservatório, também não vai poder continuar a estudar. Que pessoas como Mário Laginha nunca poderiam ter feito a carreira de sucesso de que hoje goza, pois só começou a estudar quando já tinha dezoito anos. O Secretário de Estado apresenta a baixa percentagem de diplomados pelo conservatório como uma prova de ineficácia educativa dos conservatórios, sem nunca entender que o diploma é absolutamente irrelevante para o mercado de trabalho musical. Ninguém é contratado por uma orquestra conforme o seu currículo. Se assim fosse, metade do coro Gulbenkian teria de ser despedido. Valter Lemos não entende que um processo de profissionalização de um artista está intimamente ligado à sua exposição pública, não só pelo carácter público do produto cultural, mas principalmente como método de criação de linguagem individual.

A validação do artista e do produto cultural pela sociedade obedece, por regra, a princípios de avaliação incompatíveis com a realidade artística, e o artista não é encarado como profissional de produção cultural nem como autoridade de opinião sobre o trabalho artístico. E se bem que a percepção social não é um impedimento à produção cultural, a sua errada transposição a todo o mecanismo regulador e institucional impossibilita qualquer pretensão de um saudável mercado de trabalho do sector.
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Tiago Ivo Cruz

Nasceu em 1985. Diplomado pela Escola de Música do Conservatório Nacional no curso de piano, tendo também estudado nos EUA. Fundador e dirigente do MovArte - Movimento de Defesa do Ensino Artístico. Actualmente trabalha em produção de artes do espectáculo na Fundação Calouste Gulbenkian e estuda Ciência Política no ISCTE.